Macabra | Escrito na Madrugada

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18out 2016

Maria Chiquinha e o crime passional

Postado por às em Música

Me deu a louca de ouvir Sandy e Junior. É, fazer o quê?

(Pare de me julgar que eu sei que você curtia e talvez ainda curta secretamente).

Como não amar?

Como não amar?

Confesso que nunca tinha parado para prestar atenção na letra desse clássico da música brasileira, até então “Maria Chiquinha” permanecia na minha mente como uma música bobinha de criança, porém, minha latente insônia e a facilidade criada pela união de Spotify para celular + musixmatch me permitiu esse pequeno luxo da vida contemporânea.

Analisemos algumas partes:

“Que c’ocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha?
Que c’ocê foi fazer no mato?
Eu precisava cortar lenha, Genaro meu bem
Eu precisava cortar lenha
Quem é que tava lá com você, Maria Chiquinha?
Quem é que tava lá com você?
Era fia de Sá dona, Genaro meu bem
Era fia de Sá dona
Eu nunca vi mulher de culote, Maria Chiquinha
Eu nunca vi mulher de culote”

Num primeiro momento, notamos um relacionamento aparentemente abusivo, onde o marido Genaro é possessivo e não deixa sua esposa (que ele provavelmente considera sua propriedade) sequer cortar lenha em paz. Já nos próximos versos, percebemos que algo na atitude de Chiquinha é suspeito, pois a moça dá várias desculpas ao marido que já era desconfiado por natureza.

Nos versos seguintes, que não colarei aqui para não ficar cansativo, temos Genaro questionando o fato de que a fia de Sá Dona tinha um bigode, Maria diz que ela comia jamelão, o que inicialmente me fez pensar que a fruta teria alguma propriedade que facilitasse o crescimento de barba.
Ambos entraram em uma discussão agrária que me fez aprender que em setembro não dá Jamelão. Genaro pede para que Maria Chiquinha busque um para ele, mas a moça alega que os passarinhos vorazmente devoraram todos, e sem mais nem menos, Genaro declara:

“Então eu vou te cortar a cabeça, Maria Chiquinha
Então eu vou te cortar a cabeça

E ainda repete, para que fiquem bem claras suas intenções. Nisso, Chiquinha questiona:

“Que c’ocê vai fazer com o resto, Genaro meu bem?
Que c’ocê vai fazer com o resto?”

A moça, já ciente de seu fim, quer saber pelo menos se seus restos terão um destino digno, e quando pensamos que o sadismo e loucura de Genaro haviam chegado em seu limite, eis que esta atinge níveis estratosféricos com a seguinte frase:

“O resto? Pode deixar que eu aproveito”

O que conseguimos deduzir com isso? O destino dos restos mortais de Maria Chiquinha está em suas mãos, agora você decide (os novinhos que não entenderam a referência nunca sentiram medo com esse programa do capeta).

A) Genaro é um louco canibal e fará um delicioso cozido com o corpo de sua finada esposa.

B) Genaro utilizará o corpo de Maria Chiquinha como espantalho em seu sítio (eu acho que eles moram em um sítio pelo menos).

C) Genaro se revela um horrendo necrófilo e se divertirá com o corpo sem vida de quem outrora foi sua companheira.

Logo me veio à cabeça a alternativa C, mas fique à vontade para tirar suas próprias conclusões.

Conclusão:
Temos uma canção, que fala explicitamente de uma suposta traição, seguida de um assassinato e um terceiro crime, tão horroroso quanto o assassinato em si. Cantada por crianças, repetidas por outras crianças e reproduzida em tudo quanto é canto. Tenho certeza que quando cantarolávamos essa e outras músicas no nosso tempo de infância não estávamos de fato entendendo o que tava rolando ali. Entre Marias Chiquinhas, Robocops gays e qualquer música do É o Tcham! soltávamos nossas vozes irritantes de criança sem sequer desconfiar da mensagem por trás da letra.

Agora, preciso confessar que “Maria Chiquinha” ficou muito mais divertida, e poderia inspirar Stephen King em seu próximo trabalho.

UP!