Ultimo Passageiro | Escrito na Madrugada

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13mar 2016

O Último Passageiro – Resenha

Postado por às em Livros, Resenhas

Um mistério, elementos sobrenaturais, uma bela sinopse e um autor que já havia me surpreendido no passado. Essa era a combinação perfeita para elevar minhas expectativas em relação ao livro “O Último Passageiro” de Manel Loureiro às alturas. Loureiro é responsável por uma de minhas mais gratas surpresas no mundo da literatura, a série “Apocalipse Z” que conta a infestação zumbi mais completa que já tive o prazer de consumir.

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O livro lançado em 2014 pela editora “Planeta do Brasil” tem como principal plot a história de um grande navio de passageiros da década de 1930 que foi encontrado a deriva pelos tripulantes do rebocador “Pass os Balaster”. O navio, chamado de “Valkirie” estava completamente vazio a não ser por um misterioso bebê judeu encontrado solitário em meio a pista de dança do salão de festas do navio, a comida estava recém servida e apesar disso, nenhuma outra pessoa foi encontrada a bordo do Valkirie.

Após contar como foi o encontro do Pass of Balaster com o Valkirie, somos trazidos para o presente onde Loureiro nos apresenta a personagem de Kate Kilroy, uma jornalista espanhola que vive nos Estados Unidos, cujo marido falecera a poucos meses. Kate, que até então não cobria nada além de eventos sociais e colunas de fofocas, vê-se envolvida em meio a história do Valkirie graças aos documentos e anotações de seu falecido marido. Um magnata, Isaac Feldman comprou o Valkirie e o estava reformando para que o navio pudesse voltar a navegar em todo seu esplendor.

Kate, entre uma investigação e outra acaba sendo convidada para integrar a nova tripulação do Valkirie para documentar os fatos e escrever sobre a história para o jornal em que trabalhava. Feldman tem por intenção (devido a interesses particulares que não revelarei) tentar reproduzir a última viagem do Valkirie para talvez acontecer o mesmo que aconteceu em 1939 quando o navio foi encontrado a deriva.

Feldman é judeu, o navio é da época da segunda Guerra Mundial e pertencia a Alemanha, toda sua tripulação era nazista lá em 1939. Preciso dar um ponto positivo para Feldman que é de longe o melhor personagem do livro, sua motivação é legítima principalmente após revelado quem de fato ele é. Toda essa trama parecia extremamente promissora e a introdução do livro é de arrepiar, me senti lendo um grande clássico do terror como “O Iluminado” por exemplo.

Só que não é bem assim, não.

Durante quase metade do livro, acompanhamos Kate investigando Feldman, interrogando o único tripulante do Pass of Balaster que ainda vivia e tentando entender o grande mistério por trás de toda aquela bizarrice até que Feldman a convida para sua viagem. Kate acompanharia Feldman e uma grandiosa equipe de cientistas e seguranças a bordo do Valkirie.

É preciso ressaltar que o livro possui momentos excelentes, de real tensão, mas é incrível como Loureiro se perde por aparentemente não conseguir manter o tom da história por muito tempo. Muitos acontecimentos são simplesmente não relevantes para a trama, a personagem de Kate é uma das mais sem graça que eu já pude “conhecer”. A conveniência de te trazido a urna com as cinzas de seu marido consigo e ele ser o único que podia ajudá-la em sua aventura me incomoda. As motivações das “forças das sombras” são estranhas, meio incompreensíveis e até no final quando toda a intenção dos vilões são apresentadas, o sentimento de “tá, mas falta coisa aí” ainda persiste. Para mim, o melhor elemento de toda a história é a junção de duas linhas temporais diferentes, a nossa atual e a de 1939. Os personagens alternam mesmo sem querer entre esses dois tempos, o que aumenta o dinamismo e nos vai contando um pouco da história do Valkirie sem que esta precise ser narrada por alguém.

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Todos os personagens de maior importância acabam sendo mais desenvolvidos do que a protagonista, e a maioria deles acaba passando por “transformações” ao longo da viagem, a escuridão os acaba possuindo e eles tornam-se os passageiros do Valkirie de 1939.

É de fato uma história carregada de mistérios e que pode prender pelas cenas de tensão, mas toda a relação de Kate com o marido morto e a resolução de todos os mistérios são simplesmente fracas, além do fato de que a última linha do livro conseguiu me dar um sentimento de raiva tão profundo que não consigo sequer descrevê-lo.

Não me arrependo de ter retomado a leitura depois de desistir dela com o livro pela metade. Talvez o problema comigo tenha sido as expectativas não atingidas, quem sabe se eu não estivesse esperando nada, até que a experiência pudesse ser mais proveitosa. O fato é que “O Último Passageiro” em nada me lembrou as boas sessões de leitura que tive com “Apocalipse Z”.

UP!